Feriado Municipal - 13 de Junho Área - 97 Km2
Freguesias - Civil parishes
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Ordenação heráldica do brasão e bandeira
Segundo o parecer da
Comissão de Heráldica da Associação dos Arqueólogos Portugueses de
01/04/1934
Estabelecida pela Comissão Administrativa Municipal em
20/04/1934
Aprovado pelo Ministro do Interior em
15/06/1934
Portaria
n.º 7839, do Ministério do Interior,
publicada no Diário do Governo n.º 139, 1.ª Série de
15/06/1934
Armas - De prata com um castelo de vermelho, aberto e iluminado de prata, sobre rochedos de negro, saíntes de um ondado de prata e de verde. O ondado coberto com uma rede de ouro. Coroa mural de prata de quatro torres. Listel branco com os dizeres : "Câmara Municipal de Cascais" a negro.

Baseado no desenho original de João Ricardo Silva

Bandeira - Vermelha. Cordões e borlas de prata e de vermelho. Lança e haste de ouro.

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Transcrição do parecer
Parecer apresentado por Affonso de Dornellas à Comissão de Heráldica da Associação dos Arqueólogos Portugueses e aprovado em sessão de 1 de Abril de 1934.
Pelo Ministério do Interior foi enviado em 30 de Julho de 1930 à Associação dos Arqueólogos Portugueses o seguinte ofício que o mesmo Ministério tinha recebido em 25 do mesmo mês.
- Governo Civil do Distrito de Lisboa - Secretaría - 24 Repartição – Nº 409 – Ex.mo Sr. Director Geral de Administração Política e Civil - Em referência á circular de V. Ex.ª Nº Z 2/5. Lº 77 (710) de 14 de Abril último, tenho a honra de enviar a V. Ex.ª uma exposição intitulada "Simples subsídios para a história de Cascais" e três fotografias, uma da bandeira, outra do estandarte e outra do escudo da Câmara Municipal de Cascais, que pela respectiva Comissão Administrativa foram enviadas em satisfação da referida circular. - Saúde e Fraternidade - Lisboa, 22 de Julho de 1930. - O Governador Civil (a) João Luiz de Moura, tenente coronel de Aeronáutica. -
Acompanha este ofício, como nele se diz, três fotografias, una da bandeira de Cascais que apresenta o escudo nacional e os dizeres "Câmara Municipal de Cascais", outra do estandarte, também com o mesmo escudo mas com a posição das quinas errada, visto que as apresenta em aspa em vez de estarem em cruz. Tem por debaixo os mesmos dizeres da bandeira referida.
A terceira fotografia representa o escudo da família espanhola Cascales, com a indicação de que é o de de Cascais.
Os subsídios que acompanham o mesmo ofício são exactamente os mesmos que pela Câmara Municipal de Cascais foram publicados num folheto denominado "Relatório e Contas das Gerências de 1919 e 1920" Lisboa 1921. Na capa deste folheto, com a indicação "Anexos" dá a lista dos mesmos, sendo o último anexo o que tem o título de "Pequena Memória sobre o Brasão de Cascais".
De facto, a pgs.61, lá vem "Brasão de Cascais" e em seguida a reprodução em gravura do brasão da família espanhola Cascales.
Depois tem:
- Simples subsídios para a história de Cascais -
É desconhecida a história de Cascais, a razão do seu nome, a base inicial da sua constituição e do seu organismo. - Há anos, já há muitos, há mais de vinte, Pedro Lourenço de Seixas Barruncho, que em 1882 exerceu em Cascais o lugar de Administrador do Concelho, escreveu e coordenou em um volume, que a expensas da Câmara de Cascais fez publicar, vários episódios e muitas indicações positivas sobre costumes, formas de trabalho e outras bases antigas da vida de Cascais. - Entre as muitas indicações, cita-se nesse volume, como provável, que o nome de Cascais proviria da palavra "Encascar", termo usado pelos marítimos, na preparação das redes de pesca. - Esta afirmação levaria a crer que Cascais teria iniciado a sua existência como terra de pescadores, embora a palavra "Encascar” nenhuma relação tenha com o nome de Cascais, pois nem por analogia pode ser tomada a sério. - O que parece porém, é que o inicio de Cascais provém da dedicação pela terra dos habitantes das aldeias que circundam a Vila, cujas aldeias parecem ser mais antigas do que a criação de Cascais, facto de que ainda hoje há provas extremamente frisantes. E verifica-se que essas aldeias, mantêm ainda hoje o seu princípio tradicional de cuidar e tratar da terra, embora as suas propriedades sejam em extremo reduzidas. - Verifica-se também que Cascais nunca foi de facto uma terra de pescadores, porquanto, nunca verdadeiramente os seus naturais se dedicaram á pesca, parecendo porém que, sendo Cascais uma base principal da entrada de Lisboa no Oceano Atlântico, para aqui convergiam alguns pescadores que durante uma época do ano faziam a exploração da pesca, tal qual como acontece hoje em dia. - Desde 1911, que alguém que hoje faz parte da Câmara de Cascais, depois de ter lido o livro de Pedro Barruncho e por não se conformar com a proveniência dada ao nome de Cascais, tem procurado elementos que possam dar a conhecer a verdadeira origem deste nome. - As furnas de Cascais, situadas ao fundo do passeio da República, conhecido ainda pelo Passeio do Rio, serviram de base de larga discussão no Congresso Internacional de Antropologia que se efectuou em Lisboa em 1880, discussão sustentada e defendida pelo geólogo português Carlos Ribeiro, que, por elementos que nelas tinha colhido, demonstrou e provou a existência do homem nos tempos pré-históricos. - Algumas das aldeias que circundam Cascais, pelos seus nomes de: Murches, Abuxarda, Alvide, Aldeia de Juzo e outros, dão-nos a indicação de nomes romanos e demonstram-nos a existência dos Romanos em Cascais. - Foi ainda Pedro Barruncho que, nas as suas investigações continuadas sobre Cascais, conseguiu obter elementos de prova concludente, que o verdadeiro início de Cascais provem da estada dos Romanos nestes sítios. - Desconhecemos os meios que empregou o velho Pedro Barruncho para obter elementos que nos forneceu em 1915, constantes de uma carta de um Senhor Muñoz, ligado hoje com descendentes da família "Cascales", família que nos tempos de Affonso Henriques, (salvo erro) habitou em Cascais. - Citava o Senhor Muñoz, na carta que enviou a Pedro Barruncho, pouco mais ou menos o seguinte, de cuja fórmula nos recordamos: - "Sobre as informações que me pede, cito-lhe a história dos Nobres de Hespanha, que no seu volume 12º, folhas (cujo número não nos recorda), referindo-se à família "Cascales", diz que esta família Romana, tendo habitado Lisboa, procurou, como era costume dos Romanos adquirirem grandes quintas de recreio fora das cidades, instalar-se para além do Tejo, numa larga propriedade, em volta da qual criou muitas habitações. - Mais tarde, estabelecidas desavenças do Rei de Portugal com o Rei de Espanha, os "Cascales" como eram partidários deste, resolveram abandonar Lisboa e portanto as propriedades que possuíam além do Tejo, a que deixaram o seu nome ligado, e foram instalar-se em Múrcia Província de Espanha, em cujo edifício mandaram colocar o Brasão que adoptaram e organizaram aqui, como recordação da terra que tinham abandonado e que se calcula fosse Cascais. – Esse Brasão que ainda hoje se encontra em Múrcia é assim constituído - Um escudo com fundo em ouro, tendo à volta oito escudetes em vermelho com meia lua de prata. Ao centro, um escudete em fundo azul celeste, contendo nove cabeças de dormideiras em ouro, como tudo se verifica pelo Brazão que apresentamos. - Este Brasão exemplifica-se no seguinte, segundo a nossa forma de ver: - os oito escudetes vermelhos com a meia Lua de prata simbolizando o mar, devem representar as oito aldeias que circundam Cascais, que são as seguintes: Torre, Areia, Birre, Charneca, Murches, Aldeia de Juzo, Alvide e Cobre. O escudete do centro, de fundo azul celeste, contendo as nove cabeças de dormideiras, deve simbolisar o céu e a vegetação da época, vegetação que ainda hoje aflora pela Ribeira das Vinhas. - Apresentado este reduzido trabalho, para servir de guia a investigação dos cientistas que se dedicam ao estudo destes assuntos devemos especificar mais: o Escudo que se encontra em Múrcia (Espanha) segundo a indicação do Sr. Muñoz, tem a encimá-lo a Armadura ou Carcaça de Cavaleiro. Parece verificar-se que o nome de Cascais provêm da existência aqui, da família "Cascales". Se assim é, e se assim for, demonstrado fica que, se o Escudo ou Brasão que está em Múrcia, foi o organizado e criado pelos "Cascales" deve ser adoptado como Brasão de "Cascais". - A Câmara Municipal de Cascais, não podendo obter de Pedro Barruncho mais esclarecimentos sobre este assunto, por parte deste cidadão ter falecido no ano passado no Hospital de S. José de Lisboa, apresenta-o ao estudo dos que por estes assuntos se interessam adoptando-o provisoriamente, para servir de base a um largo estudo e discussão, desejando que sobre ele se faça um estudo completo, que te a leve a adoptar como Brasão definitivo de Cascais este que apresenta, ou outro, que baseie a sua origem na tradição da sua terra. -
Analisando alguns pontos destes "Subsídios", direi que etimologia de Cascais ser proveniente de encascar, é uma hipótese sem grandes probabilidades de se poder afirmar.
A título de curiosidade citarei alguns nomes de terras que parecem ter mais ou menos analogia com cascais e que, naturalmente, não vêm de encascar. Esses nomes são:
- Cascade (Estados Unidos da América) - Cascadura (Brasil) - Cascais (Portugal e Africa Ocidental) - Cascajar (Espanha) - Cascajo (Antilhas) - Cascales (Argentina) - Cascalhal (Portugal) - Cascalheira (Portugal e Africa Ocidental) - Cascalho (Portugal) - Cascalhos (Portugal) - Cascante (Espanha) - Cascão (Portugal) - Cascatel (França) - Cascavel (Brasil) - Casconha (Portugal) - Casconhe (Portugal) - Casconho (Portugal) - Casqueira (Portugal) - Casqueiro (Portugal).
Muitos destes nomes existem repetidos dentro da mesma. Nação.
Não seria o aspecto especial da Costa de Cascais, aqueles enormes rochedos levantados, alguns com trinta e quarenta metros de altura, que teria dado o nome à terra?
Esses cascões enormes que muitas vezes têm aspectos extraordinários, quando o mar lhes bate com grande fúria, não teriam dado origem ao nome da povoação?
Chama-se cascalheira ao leito dos rios, coberto de calhaus rolados.
Chama-se Cascão, às lajes toscas mais ou menos quadrangulares.
Chama-se Cascarejos, aos naturais de Cascais.
Enfim, muitas razões se poderão dar, para tentar descobrir a origem da palavra Cascais; mas a hipótese de que vem de "encascar" parece-me fraca.
Teve Cascais uma certa importância em civilizações antigas, pois ali existem ruínas romanas, grutas, sepulturas, enfim, manifestações de grande antiguidade.
Como se chamaria esta povoação?
Pinho Leal, no seu "Portugal Antigo e Moderno", Volume II, Lxª 1874, diz, não sei com que fundamento, que esta povoação se chamava "Cascale" no tempo dos Romanos.
A referência que vem nos "Subsídios" acima transcritos, de que a família "Cascales" habitava em Cascais no tempo de D. Afonso Henriques, seria de facto interessante se se pudesse provar, mas, julgo difícil, pois não conheço a existência de tal apelido em família portuguesa, ou que existisse em Portugal durante a primeira dinastia.
Não quer isto dizer que não tivesse de facto existido, pois também não posso provar que tenho conhecimento de todos os apelidos de famílias Portuguesas. Em todo o caso, há algumas dezenas de anos que me dedico ao estudo da heráldica e da genealogia e nunca encontrei uma família com tal apelido. As poucas pessoas que se sabe que adoptaram "Cascais" como apelido, é porque ali nasceram ou descendem de quem ali tivesse nascido e isso muito modernamente.
Nos livros de armas de família, mandados fazer por El Rei D. Manuel I, existentes na Torre do Tombo, também não existem as armas das famílias Cascais, Cascales ou parecidas.
Os heraldistas que têm publicado descrições de armas de famílias portuguesas, como Vilas Boas, Sanches de Baena, Braamcamp Freire, Santos Ferreira, que são os principais, nenhum faz referência a armas de tais famílias. Enfim, pode-se afirmar que na heráldica portuguesa nunca existiu tal apelido.
As Armas da família espanhola "Cascales" são espanholas e foram naturalmente criadas em Espanha.
Vejamos o que dizem os principais heraldistas espanhóis sobre as armas das famílias Cascales e Cascall:
Francisco Piferrer, na sua obra “Nobiliario de los Reinos y Señorios de España”, Madrid, 1855, diz:
Cascales. La casa de Cascales de Murcia procedió de Portugal, de onde pasarón á dicha ciudad Juan Alonso de Cascales y su hermano Alfonso Fernandez de Cascales en tiempo del rei Don Juan I. Sus armas son: Escudo de azur y nueve cabezas de adormideras de oro. Algunos añaden bordadura de plata e ocho escudetes de gules cargados de un creciente cada uno. - Cascales "Discursos historicos de Murcia", fol. 314.
- Cascall. Juan Cascall peleó valerosamente contra los moros, mereciendo que el rey Don Jaime le hiciera alcaide del castillo de Andilla. Eran sus armas: Escudo acuartelado; 1º y 4º de gules y un pino de sinople; 2º e 3ºde azur y cinco cabezas de adormidera.- La palavra lamosina cascall significa adormidera, circunstância que nos parece suficiente para que pusiera Cascall esta planta en sus armas con alusion a su apellido. Parece sin embargo que tuvo ademas otro motivo, pues se cuenta que en ocasion en que Cascall padecia de um agudo dolor de cabeza, un moro se fingió médico, y para apoderarse del castillo, trato de hacer que durmiese recetandole, la adormidera, la cual en vez de infundinse sueño, escitó mas su insomnio. (Mosen Jaime Febrer, trob.139, pag. 82).
Segundo o que diz este autor, Juan Cascall não viveu na época do Rei D. Jaime, que conquistou Valência em 1224 e Múrcia em 1253 e muitas outras terras, aos mouros.
Ora, se Juan Cascall, Alcaide do Castelo de Andilla, na província de Valência, já na primeira metade do Século XIII tinha por armas algumas cabeças de dormideiras (cascales), fica claramente provado que não foram os dois irmãos Juan Alonso Cascales e Alfonso Fernandez Cascales que levaram as dormideiras de Portugal no fim do Século XIV, no reinado de D. João I.
Ora, há uma certa confusão no que acima transcrevo, pois que, se Juan Cascall entrou valorosamente nos combates contra os Mouros debaixo do comando do Rei D. Jaime Conquistador, fazendo parte, naturalmente, do exército que tomou Múrcia, é esquisita a razão de atribuírem a dois portugueses saídos da sua pátria no fim do Século XIV, a origem ali da família Cascales, quando há mais de um Século de distância por lá andava um Juan Cascall que usava dormideiras nas suas armas.
Não é para admirar que estes factos sucedam, porque em assuntos de história dos séculos XIII e XIV existem muitos equívocos.
Em todo o caso, desde que se compreenda que na heráldica portuguesa não existem dormideiras e que na primeira metade do Século XIII, Juan Cascall usava dormideiras nas suas armas, ficamos sabendo que essas peças heráldicas são naturalmente de criação espanhola.
Vejamos agora a monumental obra "Enciclopedia Heraldica y Genealogica Hispano-Americana" de Alberto e Arturo Garcia Carraffa, Tomo 24º, Madrid 1924, que a pags.305 diz o seguinte:
- CASCALES - Esta familia es originaria de Portugal, siendo los primeros caballeros que pasaron a España los hermanos Juan Alfonso de Cascales y Alfonso Fernández de Cascales, que en su nación habian servido al monarca de Castilla Don Juan I, cuando éste quiso castigar la rebeldia del Maestre de Avis.
En tiempos del Rey Don Enrique III, siendo Adelantado Mayor de la ciudad de Murcia Rui López Dávalos, se instituyó una Ordenanza, en la que entró a formar parte el Doctor Juan Alfonso de Cascales, que fué Procurador en Cortes y Alcalde de Casa y Corte por merced del citado Monarca Don Enrique III. Su hijo, Don Juan II, le concedió un privilegio, fechado en Guadalajara a 8 de Mayo de 1408, por el cual se podia escusar de pagar determinados tributos. Casó con doña Teresa de Aviles, en la que procreó a Juan Francisco de Cascales y a doña Aldonga de Cascales. Rodrigo de Cascales fué Regidor perpetuo de Murcia em 1453 y Alcalde de las primeras Alzadas. Juan Alfonso de Cascales desempeñó el mismo cargo en 1454 y fué señor de Fortuna. Juan Martinez de Cascales fué asimismo Regidor perpetuo de Mur-cia y del Consejo de los Reyes Católicos. Juan de Cascales ganó um privilégio de mercado franco el jueves de cada semana, por merced de Isabel la Catolica, en 1476. Antón Martinez de Cascales servió a los mismos Monarcas Católicos en la toma de Granada. Alonso Martinez de Cascales casó con doña Catalina de Sotomayor, descendiente de los Vizcondes de Benalcázar, después Duques de Medina - Sidonia, y fué su hijo, entre otros, Diego de Cascales, caballero de la Orden de Santiago. Esta familia tuvo enterramiento proprio en la capilla mayor de Santa Maria de Gracia la Real.
- ARMAS - De azur, con nueve cabezas de adormideras de oro puestas en tres fajas. Outros las acrescientan con una bordura de oro con ocho escudetes de gules, cargado cada uno de un cresciente de plata. Otros ponen en azur cinco adormideras de plata en sotuer.
- CASCALL - En Cataluña y en Valencia. Juan Cascal, natural del lugar de Monrós (Lérida), pasó a la conquista de Valencia, sirviendo al Rey Don Jaime I de Aragon, y este Monarca premió sus servicios nombrandole Alcaid del Castillo de la villa de Andilla (Valencia).
- Armas - Escudo cuartelado: 1º e 4º, de gules, con un pino de su color natural, y 2º y 3º, de azur, con cinco matas de adormidera de oro. Viciana señala equivocadamente estas armas al apelido Cascant.
Algunos Cascall, en Valencia, segun Onofre Esquerdo, traen solamente una mata de adormideras de cinco ramas en campo de azur.
Tudo nos diz que o brasão destes senhores que foram para Castela por terem em Portugal atraiçoado a sua Pátria e o seu Rei, tiveram eles ou os seus descendentes, concessão do brasão com cabeças de dormideiras, peça que já fazia parte da heráldica espanhola, como se depreende pelas Armas de Juan de Cascall.
Parece-me não ser necessário mais explicações para ficarmos convictos de que não é português o brasão de uns senhores que nada têm de simpáticos para a história da independência de Portugal.
Nos referidos "Subsídios" fala-se de um senhor Muñoz que deu informação a Pedro Lourenço de Seixas Borges Barruncho que foi Administrador do Concelho de Cascais e que publicou uma obra sobre esta Vila. Este senhor deve ser o escritor espanhol José Cascales y Muñoz que publicou várias obras sobre história e outros assuntos, e que, naturalmente, para que os seus ascendentes Cascales fossem considerados de grande antiguidade, diz que já constituíam família no tempo dos Romanos. É o costume: ninguém gosta de dizer como começou a família e dá-se então como existindo em todo o sempre.
Procurando noutros países se existiria a cabeça de dormideira na respectiva heráldica, encontro a Família "Pavyou" (Pavot-Dormideira) na notável obra francesa "La vraye et parfaite science des armoiries" por Lovvan Geliot, Paris 1660, onde a pags.343, vem a gravura do brasão desta família, constando de um escudo de ouro com três cabeças de dormideiras de verde.
Nada mais encontrei sobre o assunto, nem mesmo noutros armoriais franceses, o que indica ser uma família antiga e apelido fora de uso.
Como se vê pelos armoriais espanhóis que citei, houve ao serviço dos Reis de Espanha, na mesma época, vários homens com o apelido de Cascales, não havendo referência se eram todos de origem Portuguesa.
A bordadura dos escudetes carregados cada um de um crescente, esta naturalmente compreendida, pois, como se vê, houve guerreiros de apelido Cascales que entraram na tomada de Granada e Valencia e provavelmente em muitas outras guerras contra os Mouros, e esses escudetes é o que devem indicar.
Nos "Subsídios para a história de Cascais" acima transcritos, diz-se que se o brasão da familia "Cascales", de Múrcia, foi organizado e criado pelos "Cascales", deverá ser adoptado como brasão de Cascais.
Ora isto é uma teoria absolutamente errada.
A heráldica divide-se em três principais partes que são: a heráldica de domínio - a heráldica de corporação - a heráldica de família.
A heráldica de domínio é a que simboliza os Estados, as Províncias, os Distritos, as Cidades, as Vilas, enfim, as divisões territoriais que tenham uma pessoa ou um aglomerado de pessoas que tenham poderes sobre o território que de facto dominam.
Esta heráldica é empregada nos selos que autenticam as leis ou editais ou enfim, os documentos que impõem deveres ou dão direitos; nas armas que simbolizam a soberania e nas bandeiras que acompanham os exércitos ou que representam a soberania e o poder e que incluem a reprodução do selo conforme é reproduzido nas Armas.
A heráldica de corporação é empregada nos selos e emblemas das corporações científicas, de beneficência, de recreio, nos selos das Ordens Militares, honoríficas ou outras.
A heráldica de família é a usada pelas pessoas que mereceram a sua concessão por feitos de valor heroico, científico, artístico, enfim, é uma distinção pessoal ganha por serviços e que se transmite aos descendentes.
Portanto, não há que confundir as Armas de domínio de um Município com as Armas duma família.
Não se compreende que um Município sele os seus editais exatamente com o mesmo selo que uma pessoa usa para lacrar uma carta ou enfim para selar também um documento que assine.
Além disso, não há Município que não tenha a sua história ou qualquer circunstância que de motivo para constituir umas armas próprias, para marcar a sua acção e a sua vida dentro da vida ou da história da Nação a que pertence, sem ter necessidade de usurpar as Armas duma família.
Quando porém uma pessoa ou uma família tenha prestado relevantes serviços a um município ou, por exemplo, tenha fundado uma terra que venha a ter tal desenvolvimento que chegue a Vila ou Cidade, pode, como manifestação de homenagem, ser incluída nas armas municipais respectivas, qualquer peça das Armas do seu fundador ou do seu grande benemérito, mas nunca adoptar umas armas inteiras duma família e ainda com a agravante de se tratar duma família estrangeira ou sendo de origem estrangeira as Armas que essa família usa.
Por todos os motivos, não pode ser.
Os tais Cascales que em Espanha mereceram umas dormideiras nas suas armas, não devem merecer a menor consideração dos naturais de Cascais.
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A título de curiosidade e para não perder alguns elementos mais interessantes, dos inúmeros que encontrei para formular este estudo, venho dar conta dos seguintes:
- "Dictionaire Provençal" por Fréderic Mistral, Aix-en-Provence, 1878. - Neste dicionário, entre inúmeras referências de interesse para este estudo, existem: -
- Cascald -
Cascalh (gascão) -
Cascal (languedocien) -
Cascall (catalão cabeça de dormideira )- - estas palavras significam: ruídos; ruídos como o das nozes ou dos pratos quando são mexidos; murmúrio da água que passa nas azenhas; ligeiro ruído do mar calmo; gorjeio das aves; cacarejo das galinhas: barulho de uma reunião de mulheres; destroços de pedras: estilhaços de pedras; pilhas de pedras cortantes; cascalho; conchas; cascas de noz.
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Cascage - cascalho; pedaços de escombros; pedaços de troncos: destroços de madeira; ramos de árvores.
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Cascaia - Cascala -
Cascara - Cacara -
Cascabla – Cascaro – canto das codornizes.
Neste dicionário dá, para estas palavras, o termo "casca" como radical.
- "Diccionario enciclopédico Hispano-Americano de literatura, ciencias y artes" de Pelayo Vizirete, Apêndice segundo, Tomo 26º Barcelona 1907. - Vejamos alguns elementos curiosos desta obra:
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Cascajo – termo martimo; tiempo ó temporal muy fuerte.
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Cascajo Viejo – Buque viejo ó podrido.
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Cascarrón - termo maritimo - Viento que obriga á tomar rizos á las gavias
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Caschal: Geografia - mantial de aguas minero-medicinales en el dep. de Ahuachapán, Rep. de El Salvador. Son aguas sulfato-cálcicas y ferruginoso-magnesicas, etc.
- "Enciclopédia Ilustrada Segui" - Tomo III, Barcelona:
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Cascajo (De casco) - Conjunto de piedras menudas que se hallan en los rios ó otros parajes...
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Cascalls ó Castayls (Jaime) Arquitecto y escultor catalãn del siglo XIV, n. en Berga (Barcelona).
Enfim, quantas razões interessantes para a palavra Cascais ser descendente delas, com muito mais razão do que descender de encascar as redes.
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De tudo o que fica exposto, pode deduzir-se o seguinte:
1º. Foi o sítio de Cascais que deu o nome a pessoas que, por serem dali naturais, usaram esse nome como apelido, não tendo este sido, em Portugal, simbolizado por qualquer peça heráldica.
2º. só na Catalunha é que o termo "Cascal" significa dormideira cujas cabeças simbolizaram o apelido Cascal de que há conhecimento desde a primeira metade do Século XIII.
3º. Juan Alonso e seu irmão Alfonso Fernandes, adoptaram Cascais (Cascales) como apelido ou por ali terem nascido ou porque D. João I de Castela, por eles lhe terem prestado grandes serviços quando cercou Lisboa, lhes deu esse apelido, talvez por ter sido em Cascais que praticaram o acto de traição a D. João I de Portugal.
4º. A etimologia da palavra Cascais parece ter origem nas circunstâncias da própria região, conforme se verifica peras definições acimas expostas, tomando como base os rochedos, as pedreiras e até o barulho do mar. Tudo isto anterior à acção dos pescadores se servirem de certas cascas para com a sua infusão colorirem ou conservarem as redes da pesca.
5º. Cascais tem história e vida suficiente para ser ordenado o seu selo e portanto as suas Armas e a sua bandeira.
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Vejamos agora um pouco de documentação histórica:
Na obra de Francisco Nunes Franklin "Memoria para servir de indice dos foraes das terras do reino de Portugal e seus dominios", 28 edição, Lisboa, 1825, sobre Cascais, diz:
- Foral antigo, dado a 9 de Janeiro de 1154 e confirmado no ano de 1189, conforme se verifica no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Maço I de Foraes antigos, nº 11 Livro II dos bens dos proprios da Rainha, folhas 41 verso.
- Foral novo dado em 15 de Novembro de 1514, registado no Livro dos Foraes novos da Estremadura, folhas 102, Columna I.
Apesar de ter foral dado em 1154 e confirmado em 1189, Cascais só foi elevada a Vila pelo Rei D. Pedro I em 7 de Junho de 1364, completando assim no próximo dia 7 de Junho, 570 anos de categoria de Vila.
Por me parecer pouco conhecido este documento, e pela grande importância que tem para Cascais, vou transcrevê-lo:
- Dom Pedro pella graça de deus Rey de Portugal e do Algarue a quantos esta carta virem faço saber que os homens bõos de Cascaaes me enuiarom dizer que fosse minha merece de os fazer issentos da sugeiçom de Sintra cuja aldea era e lhes outorgase que o dito logo de Cascaaes fosse uilla per ssy e ouuese per soy Jurdiçom e Juizes pera fazer direito E Justiça E os outros officiaaes que fossem compridoiros pera boo regimento desse lugar E que elles dariam a mjm em cada hũm ano duzentas libras mais aallem daquello que me rendiam os meus direitos que eu avia do dito logo E eu veendo o que me enviarom dizer e pedir e teendo que he seruiço de deus e meu e guarda da minha terra porque aquelle lugar está em aquella costa de mar E querendo fazer graça e mercee aos moradores do dito lugar de Cascaaes Tenho por bem e mando que o dito lugar de Cascaaes seia issento da sugeyçom de Sintra cuja aldea era e que seia villa per ssy E que aia Jurdiçom do civel e do crime como ham as outras villas do meu Senhorio que assy som issentas E mando que ellejam seus Juizes pera fazerem direito e Justiça e façam seus officiaes segundo he costume de fazer nas outras villas do dito meu senhorio E elles devem dar a mim em cada hũm ano daqui en diante as ditas duzentas libras aallem do que eu hi ey E em testemunho desto lhes mandey dar esta minha carta. Dante em Santarem Vij dias de Junho. Elrrey mandou-o per Afomso Dominguez seu vassalo. Airas Lourenço a fez. Era de mill iiij e dous anos. (1364).
Encontra-se este documento a folhas 97 verso da Chancelaria de D. Pedro, livro único, donde o transcreveu o ilustre e erudito escritor Pedro de Azevedo que o publicou na obra "Homenagem da Academia das Ciências de Lisboa ao seu eminente sócio de mérito Dr. Henrique da Gama Barros", Coimbra, 1921.
Deve a Vila de Cascais fixar bem a data de 7 de Junho de 1364 em que foi elevada a Vila e até festejar solenemente esse dia em todos os anos que forem decorrendo, mostrando assim a sua gratidão à memória desse Rei tão extraordinário que foi D. Pedro I.
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A Vila de Cascais é, pela sua situação e fortalezas, a guarda avançada de Lisboa, a primeira sentinela da entrada do Tejo, a vitima da primeira investida dos inimigos que vêm de fora e de que já deu provas quando da entrada das esquadras castelhanas que invadiram ostensivamente as margens do Tejo, tendo Cascais e os seus habitantes sido vítimas de atrocidades, depois de heroica resistência vencida pelo número e pela traição, portanto, Cascais está dentro dos limites da simbologia heroica, merecendo bem que nas suas armas, pelas peças e esmaltes heráldicos, se salientem tais factos no que têm de honroso.
Também a parte activa e laboriosa dos seus naturais deve ter representação, como manifestação de luta pela vida, demonstrando-se assim que Cascais, através dos tempos, tem lutado sempre, ou contra os inimigos que belicosamente querem invadir o Tejo, ou contra o mar na faina laboriosa e também heroica da pesca.
E assim, proponho que as Armas de Cascais sejam ordenadas pela seguinte forma:
- De prata com um castelo de vermelho, aberto e iluminado de prata, sobre uns rochedos de negro, saintes de um ondado de prata e de verde. O ondado coberto de uma rede de ouro. Coroa mural de prata de quatro torres. Listel branco com os dizeres "Vila de Cascais" ou "Camara Municipal de Cascais" a negro.
- Bandeira vermelha. Cordões e borlas de prata e de vermelho. Lança e haste de ouro.
- Selo circular, tendo ao centro as figuras das armas sem indicação dos esmaltes, tudo dentro de círculos concêntricos, com os dizeres "Câmara Municipal de Cascais".
A bandeira para cerimónias e cortejos, deve ter um metro quadrado.
É indicado o esmalte vermelho para o castelo, porque esta cor, heraldicamente, significa vitórias, ardis e guerras e representa a vida, a alegria, o sangue e a força.
É indicada a prata para o campo da Armas porque este metal, na heráldica, denota humildade e riqueza, qualidades dos seus naturais e da região.
O negro indicado para os rochedos, representa a terra e significa firmeza e honestidade, qualidades que através dos séculos sempre têm distinguido os seus naturais.
A onda prateada e verde é o que naturalmente é indicado para representar o mar.
O verde, em heráldica, corresponde à água e significa esperança e fé.
A rede representa a vida activa dos naturais, que têm no mar, na sua praia e nas belezas naturais da sua terra, os meios de adquirirem os recursos necessários para a sua subsistência.
É indicado o ouro para a rede, porque este metal, na heráldica, significa fortuna, poder e liberalidade.
Como a peça principal das armas é de vermelho, deve a bandeira ser desta cor.
A coroa mural de prata de quatro torres, é a que superiormente foi deliberado para simbolizar as Vilas.
E assim, com esta constituição, são respeitadas e cumpridas as regras estabelecidas pela circular de 14 de Abril de 1930, exреdida pela Direcção Geral Administração Política e Civil do Ministério do Interior.
Com a organização deste parecer fica satisfeito o pedido feito pela Câmara Municipal de Cascais em seu ofício nº719 de 13 de Janeiro do corrente ano.
Lisboa, 14 de Abril de 1934.

Affonso de Dornellas.
(Texto adaptado à grafia actual)Fonte: Processo do Município de Cascais (arquivo digital da AAP, acervo “Fundo Comissão de Heráldica”, código referência PT/AAP/CH/CSC/UI0018/00186).
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